A falsa polêmica BRT X VLT ou desviando o foco das necessidades de mobilidade da população metropolitana


Glória Cecília Figueiredo[1]

Os freqüentes discursos com os quais tem sido apresentado o debate sobre a mobilidade em Salvador e Região Metropolitana, tem equivocadamente simplificado a discussão para uma falsa polêmica que gira em torno da “escolha” do modal estrutural, Metrô, o BRT ou VLT, que deve ser adotado para implantar a ligação Av. Paralela – Aeroporto. Conduzido deste modo o debate fica limitado quase que exclusivamente às demandas efêmeras da Copa 2014, que vão atender basicamente aos turistas e os segmentos econômicos do turismo, além de superpor valorizações em áreas já qualificadas da Cidade, em detrimento do atendimento de áreas populosas e de grande pobreza[2]. Assim, pautar a discussão da mobilidade pela atual celeuma BRT X VLT é estéril porque de partida trata de tais modais como oposição mutuamente excludentes, secundarizando a necessária discussão da integração dos modais.

O tom deste debate também tem o equívoco de colocar demasiado acento na expansão, abrindo mão de discutir, no mesmo patamar de importância, a manutenção, a qualificação das redes e infra-estruturas públicas existentes de mobilidade (sistemas viários, calçadas, passeios, pontos de ônibus, terminais rodoviários, aquaviários e aéreos etc), onde destacam-se os sistemas de transportes públicos utilizados pela maior parte da população. Sem falar da omissão de um debate crucial da mobilidade que refere-se ao seu acesso, através de pautas como a regulação tarifária (a pesquisa ANTP 2009 revelou que a tarifa do transporte coletivo de Salvador era a mais cara entre as capitais do Nordeste[3]), a distribuição dos subsídios e os critérios de concessão. Neste sentido, reclamam de maior atenção no debate temas como: a revisão da concessão do transporte coletivo de ônibus de Salvador, com sua situação de claros indícios de oligopólio, a efetividade do bilhete único e a integração das viagens originadas no sistema de trens do Subúrbio com o transporte coletivo, já que a maior parte destes usuários, de bairros populosos da cidade, possuem baixíssima renda.

Este tipo de abordagem desvia o foco do que deveria ser o cerne da discussão, qual seja, como enfrentar a problemática para atendimento das necessidades cotidianas de mobilidade da população da Região Metropolitana, que precisa se deslocar com dignidade para morar, trabalhar, acessar serviços e bens essenciais para a vida. O Relatório Geral mais recente do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana da Associação Nacional de Transportes Públicos[4] (ANTP) apresentou indicadores que evidenciam que a maior parte dos custos da mobilidade, sejam individuais (arcados pelos usuários) ou sociais (arcados pelo poder público), são destinados ao uso dos modos individuais de transportes. Segundo a ANTP, em 2009 os custos individuais da mobilidade foram estimados em R$ 125,6 bilhões por ano, sendo 80% desse total relacionado ao uso dos modos individuais (auto e moto). No mesmo ano o custo social foi estimado em R$ 11,7 bilhões por ano, dos quais 93% corresponderam ao uso dos modos individuais, através de intervenções de manutenção de vias (ANTP, 2009).

Gráfico 1 – Custos individuais e sociais da mobilidade, Brasil, 2009.

Fonte: ANTP, 2009.

Contudo, apesar da maior parte dos recursos da mobilidade ser voltada à manutenção dos modos individuais de transportes, quando se observa a divisão modal são o modo a pé e o transporte coletivo os responsáveis pela maior parte dos deslocamentos da população. Conforme o já referido Relatório Geral do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana da ANTP, estes dois modais juntos totalizaram 66,9% das viagens realizadas em 2009 (ibid). Neste sentido, seria muito mais adequado e socialmente justo que os recursos empregados na mobilidade fossem direcionados principalmente para atender as demandas de deslocamentos que qualifiquem o modo a pé, o transporte coletivo e outros modais alternativos.

Gráfico 2 – Divisão modal, Brasil, 2009.

Fonte: ANTP, 2009.

O foco no atendimento das necessidades da população, o conhecimento e dimensionamento de estimativas das suas correspondentes demandas atuais e futuras é que deveriam balizar uma discussão consistente sobre as alternativas projetuais e de modais de transportes mais adequadas. No entanto, existe um profundo desconhecimento destas demandas pelo Estado e Municípios (tanto que a solicitação de estudos de demanda é um dos itens do objeto do PMI da Mobilidade) e há poucas pesquisas na Universidade que debruçam sobre a questão. A necessidade deste conhecimento pode ser sintetizada em duas perguntas que precisam ser respondidas para o presente e para o futuro: quais são e onde se localizam as atividades sociais e econômicas que esta população desenvolve? Quantos desenvolvem cada tipo de atividade(s) e quais as suas condições de mobilidade?

No caso da atual dinâmica metropolitana e seu impacto na natureza e volume das demandas de mobilidade, dois aspectos precisam ser destacados. O primeiro refere-se à reconfiguração da divisão econômica e social do espaço e da divisão territorial do trabalho da RMS a partir da implantação da Ford, onde houve a inserção de um contingente significativo de trabalhadores, mesmo que precariamente. O fato é que, com esta inserção estes trabalhadores foram habilitados no acesso ao crédito financeiro, que lhes ampliou sua capacidade de consumo. Isto implica em um forte movimento diário destes trabalhadores entre Salvador e municípios da RMS e sua área de influência, para acessar os serviços do terciário de ponta da centralidade da área do Iguatemi, que polariza economicamente a região.

O segundo aspecto que impacta as demandas de mobilidade relaciona-se com um cenário de fraca policentralidade pública, com a concentração em Salvador de equipamentos de consumo coletivo de abrangência regional. Pode-se afirmar que as necessidades por serviços públicos essenciais obriga vastos contingentes populacionais de municípios da RMS e do interior em geral a se deslocar diariamente para a Capital do Estado (quem tiver dúvidas basta olhar a quantidade de ambulâncias que se aglutina todas as manhãs na Avenida Sete de Setembro).

As Cidades que são referência no desenvolvimento de políticas de mobilidade têm a marca da intermodalidade e do atendimento de suas populações. Se Salvador quer realmente se “preparar” para a Copa ela precisa se voltar para as necessidades da sua população, pois se houver condições de mobilidade com qualidade e justiça social elas também serão para os turistas e visitantes.


[1] Diretora-Presidente da Sociedade Brasileira de Urbanismo – SBU e membro da Federação Iberoamericana de Urbanismo – FIU.

[2] Para uma discussão mais aprofundada consultar PONTE, Patrícia. As verticalidades e as horizontalidades do transporte público de Salvador – BA. Dissertação de Mestrado do IGEO / UFBA, 2009.

[3] ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRANSPORTES PÚBLICOS (ANTP). Sistema de Informações da Mobilidade Urbana: Relatório Geral. 2009.

[4] ANTP, idem.

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2 Respostas para “A falsa polêmica BRT X VLT ou desviando o foco das necessidades de mobilidade da população metropolitana

  1. Esclarecimento.Nos do movimento Eu Quero Vlt em Salvad0r,usamos esse titulo APENAS como a bandeira do nosso movimento,em nossa pauta de debates sobre a Mobilidade Urbana com Sustentábilidade,estão incluídos a conclusão do metro até Pirajá com a ligação integrada aos bairros atendidos por aquele terminal,a requalifacação do trem do suburbio com expansão até a RMS,O corredor da Paralela com a ligação Rotula do Abacaxi a L. de Freitas transporte por bicicletas com a criação de estações de apoio, A INTEGRAÇÃO TOTAL DE TODOS OS MODAIS ATRAVÉS DA TARIFA ELETRÔNICA UNICA POR TEMPO DE PERMANÊNCIA NO SISTEMA a requalificação e reestruturação do atual sistema de transporte por ônibus com o enxugamento de linhas,supressão das SUPERPOSIÇÃO de linhas,fundamentar roteiros de linhas baseado no principio ORIGEM E DESTINO, a REQUALIFICAÇÃO DO MATERIAL HUMANO usado pelos operadores do sistema, ACESSIBILIDADE EM TODOS OS NÍVEIS,inclusive dos ônibus com a implantação de veículos com piso baixo,requalificação dos equipamentos públicos da cidade , e a DESVINCULAÇÃO TOTAL DA ADOÇÃO DO NOVO SISTEMA DE MOBILIDADE URBANA, DO EVENTO DA COPO DE 2014 que não trará mais do que 70 mil visitantes (a maioria dos visitantes ja viram com pacotes fechados, incluído transfer do aeroporto hotel e estádio)No carnaval recebemos mais de 800 mil visitantes com os mesmos onibus o mesmo aeroporto e temos em Salvador a terceira Rede Hoteleira do Brasil em Numero de Leitos.O equivoco é certamente dos defensores de um sistema retrógado (BRT) e do OLIGÓLIO institucionalizado na cidade,que tentam a todo custo confundir a opinião publica com informações falsas e passando a impressão de tratar- se de uma guerra de bandeiras e de torcidas organizadas.O nosso movimento é fundamentado em critérios técnicos, sociais e humanos e acima de tudo um movimento em defesa da CIDADANIA. Atenciosamente -Pregopontocom. pp EU QUERO VLT EM SALVADOR

  2. O movimento “Eu quero VLT em Salvador” defende a integração entre todos os modais de transporte, como predominância dos transportes sobre trilhos (Metrô, VLT, Trem).

    vltemsalvador.blogspot.com

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