O Desafio da velocidade

Estamos a menos de quatro anos da copa e ela será no Brasil. O país se prepara para receber a maior competição de futebol do mundo tentando equacionar os problemas de infraestrutura aeroportuária e de estádios; de mobilidade e acessibilidade urbana das cidades que receberão os jogos; de logística turística, incluindo-se aí as estratégias para recepção dos visitantes, disponibilização de leitos de hotel e infraestrutura de restaurantes, bares, etc. Salvador se insere nesse contexto.

Depois da polêmica demolição da Fonte Nova para construção do novo estádio, as discussões se centram nos projetos de mobilidade urbana. E nas condições de saturação do aeroporto internacional. Reconheçamos: a cidade não está preparada para um evento assim, muito precisaria ser feito, as instâncias oficiais não dispõem de bons projetos – e em muitos casos nem mesmo de algum projeto! – e há uma corrida contra o tempo para enfrentar as evidentes dificuldades. Um desafio se impõe: o da velocidade.

O desafio da velocidade suscita outra questão: o que permanecerá de todo esse esforço após os jogos?

Observa-se uma dialética entre o efêmero e o duradouro, entre o provisório e o definitivo. O risco? O famoso jeitinho brasileiro que pode fazer surgir galpões de passageiros provisórios em nossos aeroportos ou, no caso de Salvador, a opção – esta definitiva – pelo modo ônibus como meio estruturante para solucionar os problemas de mobilidade urbana da Soterópolis. Aqui o dilema é entre o Veículo Leve sobre Trilhos e o BRT, este último o que encontra mais adeptos, já que, ao que parece, seria de execução mais barata e poderia estar pronto até 2014. É o desafio da velocidade, portanto, o critério maior das decisões. Senão vejamos…

O BRT é um projeto do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador, apoiado pela Prefeitura e defendido pelos empresários como “rápido, eficiente, confortável e seguro”. 570 milhões de reais serão aplicados na primeira etapa, grande parte dos recursos financiada pelo BNDES. Foram selecionados 127 km de corredores principais para o BRT e a pretensão é a de integrá-lo a outros modos de transporte a fim de consolidar um sistema multimodal e integrado, incluindo toda a Região Metropolitana. Mas, afinal, quanto será investido em outros modos de transporte?

Em Salvador, nos últimos cinco anos, 180 mil novos automóveis foram acrescentados à frota já existente, sem a construção de vias estruturantes nem a conclusão (passados mais de dez anos!) de um pequeno trecho do metrô. Hoje, o transporte coletivo em Salvador já é quase que exclusivamente baseado no modo ônibus e padece de problemas de toda ordem: saturação das estações de transbordo, infraestrutura viária deficiente, baixa frequência e falta de regularidade de/entre partidas, excesso de linhas concorrentes nos principais corredores, etc.

Mas o desafio da velocidade não se refere apenas aos problemas de mobilidade urbana. Será necessário também equacionar os problemas de comunicação, de divulgação das informações e conteúdos, afinal os olhos do mundo estarão voltados para Salvador, a Bahia e o Brasil. Pouco se fala na questão da infraestrutura de comunicações em nossas cidades, do acesso tremendamente desigual à rede mundial de computadores no Brasil, onde a proporção de domicílios com computador não supera a marca dos 36% (TIC Domicílios, dados de 2009). Na região Nordeste esse percentual é ainda mais baixo, não ultrapassando 18% (em comparação com a região Sudeste, com 45%, e a região Sul, com 43%). Se considerarmos somente aqueles computadores com acesso à internet esses números caem, respectivamente, para módicos 27 e 13%.

Na Bahia, o acesso à internet deu um salto relativo, entre 2003 e 2009, de acordo com o IBGE: 17,1% dos domicílios possuem computadores com conexão, em 2003 eram apenas 4,67%. Em Salvador, 33,4% dos imóveis têm acesso à rede mundial, em 2003 o percentual era de 11,7%. Mesmo assim, estamos longe de realidades como, por exemplo, a de Berlim, sede da Copa de 2006, onde 73,3% dos domicílios dispõem de computador com acesso à internet e a administração municipal quer implantar uma rede sem fio que cubra todos os espaços públicos da cidade.

Mais uma vez o dilema entre o provisório e o definitivo se revela: vamos apostar em centros de informação para a imprensa internacional que não vão deixar vestígios após a Copa, ou aproveitar a oportunidade para ampliar o acesso da população à internet? Voltemos a Berlim…

Vive-se em Berlim a era da universalização da rede sem fio (WLAN). A ideia é instalar roteadores e antenas em semáforos, postes de iluminação e telhados de edifícios públicos, o que vem causando polêmica, por conta do impacto visual e da possibilidade de possíveis falhas de sincronização com os semáforos. Mas essa não é a única causa de insatisfação: Muitos gostariam que a infraestrutura fosse de fato pública e não explorada pela iniciativa privada.

Na capital alemã, uma rede sem fio gerida pelos usuários é realidade desde 2002. Trata-se da iniciativa Freifunk (“Onda Livre”), que reúne muitos adeptos, principalmente nos distritos do lado oriental, onde, após a queda do muro, a empresa Telekom instalou cabos de fibra ótica, na época a tecnologia mais moderna para acesso à internet rápida. Porém, esses cabos se mostraram inapropriados para a instalação de uma infraestrutura de WLAN que requeria cabos de cobre: Isso fez surgir a rede Freifunk, fruto da organização dos habitantes, que conseguiram instalar uma (impressionante) estrutura descentralizada de WLAN, a um custo muito baixo e sem conexão com um provedor central.

Se, na Alemanha, Freifunk significa uma rede autônoma e não hierárquica de comunicação, no Brasil poderia representar uma possibilidade de acesso à internet de modo criativo, participativo e compartilhado para quem de fato necessita dessa técnica e não pode assumir os custos de sua instalação. E, claro, a Copa poderia ser também uma excelente oportunidade para este tipo de mobilização. Mobilização, aliás, que poderia contaminar as estruturas de gestão e planejamento da cidade e do Estado, incentivando a participação popular via internet, mas também fazendo (finalmente!) funcionar os conselhos municipais e criando estruturas de fato participativas, com representantes legítimos da sociedade civil integrados ao processo de tomada de decisões sobre o futuro da cidade.

A Copa poderia, portanto, se constituir em uma chance real para a consolidação dos processos participativos de gestão em Salvador, garantindo transparência e visibilidade na aplicação dos recursos para a reestruturação do espaço urbano, tão marcado desde os anos 1990 pelo ideário do planejamento estratégico e do empresariamento urbano.

Angelo Szaniecki Perret Serpa

Professor Associado da UFBA, docente permanente dos Programas de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU) e Professor do Departamento  e Mestrado em Geografia – UFBA.

Fonte: Observatório da Copa Salvador (FAU-UFBA)

Matéria original: http://www.observatoriosalvador2014.com.br/post/o-desafio-da-velocidade

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